Brasil estrangeiro

As discussões sobre a imigração e seus desdobramentos está longe de ser esgotada. Atualmente, no país, vivemos um momento único: diversos imigrantes de países em crise adentram o Brasil buscando melhores condições de vida (educação, emprego, estabilidade). Mas o Brasil, por si só, também vive, em certa escala, uma crise financeira e política. Com a moeda desvalorizada, a economia abalada, e a perda de confiança dos investidores, alguns brasileiros que têm condições estão emigrando do pais, também buscando melhores condições de vida.

Para começarmos a entender a problemática da imigração, a contribuição de Milton Santos é vital. Para Milton Santos (2002a), o território é composto das técnicas, dos meios de produção, dos objetos e coisas, do conjunto territorial e da dialética do espaço em si. Isso significa, na prática, que delimitações territoriais não são o suficiente para estabelecer um território. O exemplo do continente africano ajuda a elucidar melhor esse conceito. No fim do Século XIX, a África foi “partilhada” pelos europeus, num episódio conhecido como “Corrida da África”. O continente africano foi, literalmente, dividido entre as nações europeias, sem levar em conta noções de ambientação sociocultural dos povos que lá viviam. A consequência dessa “partilha” é que muitas tribos rivais, ou grupos que não dividiam a mesma cultura, foram colocados no mesmo território. O que vemos hoje, fruto dessa “partilha”, é um continente cheio de países sem estabilidade, e que vivem em constante guerra civil.

David Bainbridge – Charge sobre a “Partilha da África”

Retomando o conceito de território de Milton Santos, entendemos o que leva alguém a sair de seu país natal e buscar melhores condições de vida em outros territórios, uma vez que os indivíduos não conseguem se manter em seus lugares de origem.

O Brasil possui uma população muito diversa étnica e culturalmente. Isso se deve por um lado à colonização do país e ao regime de trabalho escravo, que trouxe para o território brasileiro europeus e africanos e, por outro, aos fluxos de imigração que o país recebeu ao longo dos anos.

Assim, é possível observar que a chegada de imigrantes no país não é novidade e que, na verdade, esses ajudaram a formar a cultura do país, como afirma Darcy Ribeiro

“Quando
 começou
 a
 chegar
 [imigrantes] em
 maiores
 contingentes,
 a
 população
 nacional
 já
 era
 tão
 maciça
 numericamente
 e
 tão
 definida
 do
 ponto
 de
 vista
 étnico,
 que
 pôde
 iniciar
 a
 absorção
 cultural
 e
 racial
 do
 imigrante
 sem
 grandes 
alterações
 no
 conjunto.” (p.242).

Ainda hoje vemos um fluxo de imigração intenso para o país, porém esse parte de lugares diferentes. Pessoas da América Latina deixam seus países em busca de melhores condições de vida, assim como de países africanos. Também observamos um fluxo migratório de refugiados, que buscam asilo no país. De acordo com o Guia das Migrações Transnacionais e Diversidade Cultural para Comunicadores: Migrantes no Brasil, de Denise Cogo e Maria Badet:

Segundo o IBGE, até 2000 o número total de migrantes transnacionais no Brasil vinha registrando um decréscimo contínuo a cada censo, já que os fluxos mais intensos de migração do exterior para o Brasil ocorreram até a década de 1950 […] no Censo de 2000, eram 510.068 os estrangeiros vivendo no Brasil. Ainda segundo o Instituto, a origem da maioria dos estrangeiros neste período era de Portugal, Japão, Itália e Espanha. Porém, o tamanho desses grupos vinha se reduzindo continuamente, tanto em números absolutos, quanto em participação percentual. Os únicos grupos que apresentaram crescimento contínuo desde 1970 foram os de migrantes vindos da Bolívia, Peru e Colômbia, embora suas participações no total de estrangeiros ainda sejam pequenas, como observado nos dados divulgados pelo IBGE. (Guia das Migrações Transnacionais e Diversidade Cultural para Comunicadores: Migrantes no Brasil, página 25).

Imigrantes haitianos com carteira de trabalho no Brasil.

O que se observa no contexto atual de imigração é que, de forma diferente de outros períodos da história, em que havia políticas do Estado para incentivar a vinda de imigrantes com o intuito de “embranquecer a mão de obra” após a abolição da escravidão, os que chegam ao país hoje encontram, por vezes, péssimas condições de trabalho e dificuldades para se integrar com nossa cultura, apesar de esforços de inclusão regionais, como acontecem no estado de São Paulo que permite o acesso à escola para filhos de imigrantes mesmo em situação irregular ou o Sistema Único de Saúde, que garante atendimento médico sem necessitar do Cadastro de Pessoa Física (CPF).

Operários – Tarsila do Amaral (1933)

 

Essa dificuldade em se integrar se traduz em casos como os de bolivianos que são escravizados em indústrias têxteis  em São Paulo ou casos de violência como o que ocorreu com seis haitianos também em São Paulo.

Ainda em movimento  

Embora os imigrantes encontrem grandes dificuldades e até violência no Brasil, é preciso reconhecer que há movimentação nesses grupos para lutar contra a discriminação e garantir mais direitos.

Parte disso se deve a ações afirmativas, apoiadas pelo estado, como acontece com a programação do Memorial da América Latina em São Paulo, que recebe apoio do Governo do Estado e da Prefeitura da Cidade para promover eventos que valorizam e difundem a cultura dos povos latinos na cidade. Um exemplo disso foi o  Carnaval Andino Yunza, que teve sua quarta edição em São Paulo em março de 2015. Além disso, organizações como a Pastoral dos Migrantes e a Adus oferecem ajuda para imigrantes e refugiados.

A comunidade estrangeira vivendo no Brasil também é capaz de organizar e promoveu, em novembro de 2015, a Marcha dos Imigrantes, que já está em sua nona edição.

Com o tema “Fronteiras Livres: não à discriminação”, a 9ª Marcha dos Imigrantes reuniu imigrantes de diversas nacionalidades e caminhou levantando importantes bandeiras em suas lutas por direitos. O material impresso distribuído durante o evento, mostrava uma lista que trazia todas as pautas de maior importância e que podem garantir maior cidadania e melhores condições de vida para os imigrantes. Confira:

  1. Por fronteiras livres para as pessoas;
  2. Pelo livre trânsito e residência para todos/as;
  3. Por cidadania universal;
  4. Pelo fim das deportações;
  5. Pelo fim da discriminação e xenofobia;
  6. Pela ratificação dos tratados internacionais;
  7. Por uma lei de (i)migração humana e democrática;
  8. Por uma nova anistia dos imigrantes;
  9. Pelo direito à educação, saúde, moradia e lazer de qualidade;
  10. Pelo trabalho decente;
  11. Pelo fim da exploração do (i)migrante;
  12. Pelo direito de votar e ser votado/a;
  13. Por uma distribuição justa da renda e do capital;
  14. Pelo acesso às políticas públicas e à justiça gratuita;
  15. Pela integração dos povos;
  16. Por nenhum direito a menos paras os/as imigrantes.

Durante a marcha, além das pautas relacionadas a imigrações, representadas por uma cerca de arame farpado que os manifestantes carregavam para lembrar da violência que sofrem os migrantes, o evento também contou com um bloco de mulheres, que levantaram bandeiras de combate à violência contra a mulher e pela defesa de direitos reprodutivos, como o fim da violência obstétrica.

Enquanto caminhavam pelo Centro da cidade de São Paulo em direção à Catedral da Sé, muitas manifestações culturais dos povos latinos e africanos aconteceram por meio de músicas e uma apresentação do grupo boliviano Kantuta, que trouxe um número de dança tradicional. Veja as fotos:

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Por Gustavo Faggiani, Jéssica Abrahão, Patrícia Graciano, Rhuan Pereira e Vinícius Rico.

Fotos: Rhuan Pereira

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