Formação étnica do Brasil

Confira como se configurou a formação do povo brasileiro e
os mitos que ainda correm por detrás de certas afirmações.

 

“Somos todos juntos uma miscigenação.
E não podemos fugir da nossa Etnia” (Chico Science & Nação Zumbi, Etnia)

Um dos temas que frequentemente é abordado nas escolas e universidades é como se deu a formação do povo brasileiro

É alvo de estudos por diversos sociólogos, antropólogos, historiadores entre outros.

Curioso é que somos prontamente identificados como um dos povos que mais se misturaram durante a história, mas será que paramos para nos perguntar quais seriam os motivos por trás dessa suposta facilidade em se misturar?

Vamos falar nesse texto de como se deu o processo de formação que deu a “cara do Brasil”. Abordaremos a relação dos 3 principais grupos, os brancos de Portugal, os negros trazidos da África e os indígenas nativos.

Jean Baptiste Debret. Modesto Brocos – Engenho de mandioca, 1892. Museu Nacional de Belas Artes - RJ

Jean Baptiste Debret. Modesto Brocos – Engenho de mandioca, 1892. Museu Nacional de Belas Artes – RJ

 

Democracia racial?

As interações entre portugueses e indígenas se deram sobretudo no começo da colonização, desde a época do escambo e extrativismo até praticamente nas expedições bandeirantes. Diferente do negro, os indígenas possuíam alma segundo a visão dos portugueses, logo deveriam ser catequizados pelos jesuítas e tirados do estado de “selvagem”.

Cabeças de Índios – Jean Baptiste Debret – Viagem pitoresca e histórica ao Brasil – Paris, 1836 – Belo Horizonte – Editora Itatiaia Limitada - 1978

Cabeças de Índios – Jean Baptiste Debret – Viagem pitoresca e histórica ao Brasil – Paris, 1836 – Belo Horizonte – Editora Itatiaia Limitada – 1978

 

Por terem uma mão de obra menos especializada e pelo fato de os portugueses lucrarem – e muito! – com a mão de obra negra trazida da África, o indígena foi gradualmente sendo substituído pelo força de trabalho no trabalho na colônia.

Um importante autor em que devemos nos apoiar para explicar muitas dessas relações é Gilberto Freyre. Casa-Grande e Senzala (1933) é considerada sua obra-prima, o modo como o autor interpretou o Brasil contribuiu de maneira significativa para os estudos da miscigenação.

Freyre estuda a relação do branco português com as demais etnias com foco para o período colonial. Para contornar a falta de mulheres portuguesas na colônia teriam sido criadas, nas palavras de Freyre “zonas de confraternização entre vencedores e vencidos”.

O autor argumenta que o português por excelência era um povo que apresentava uma “plasticidade social” o que o permitiria a ele estar apto a um projeto de colonização. A preocupação maior do português, segundo Freyre, era com questões da fé, e não em se miscigenar.

A obra frequentemente é criticada por ter criado uma noção de democracia racial. Ele enxergava de maneira preconceituosa também a miscigenação, classificando os mulatos e cafuzos como “doentes”. Hoje seria um absurdo uma publicação com esses traços, porém em sua época era um pensamento muito forte e corrente entre boa parte dos intelectuais.

Negros de Diferentes Nações – Jean Baptiste Debret – 1768-1848 – Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil – Torno 1 – Belo Horizonte : Ed .Itatiaia Limitada ; São Paulo E. Da Universidade de São Paulo, 1978"

Negros de Diferentes Nações – Jean Baptiste Debret – 1768-1848 – Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil – Torno 1 – Belo Horizonte : Ed .Itatiaia Limitada ; São Paulo E. Da Universidade de São Paulo, 1978″

 

Podemos dizer, para fins didáticos, que essa dinâmica de exploração e miscigenação permaneceu quase intacta até a abolição da escravidão em 1888. O engenho de açúcar deixou de ser a atividade econômica principal, mas a relação de dominação entre os que possuíam escravos pouco se alterou.

Para termos ideia de quão profunda foi essa miscigenação, um estudo intitulado “Retrato Molecular do Brasil” coordenado por Sérgio Henrique Pena (UFMG), afirma que dos 51,6% que se autodeclararam brancos em 2000, 60% possuem genes da linhagem materna atrelado às índias e negras!

Alexandre Rodrigues Ferreira - Praça do Pelourinho e barcos de guerra - Viagem Filosófica - Biblioteca Nacional

Alexandre Rodrigues Ferreira – Praça do Pelourinho e barcos de guerra – Viagem Filosófica – Biblioteca Nacional.

 

A pesquisa apenas reforça, agora com precisão e embasamento matemático e biológico, o que os sociólogos já sabiam: que o processo de mistura se deu principalmente do homem branco português para com as demais etnias, reforçando a posição de dominação que detinha.

Um excelente documentário que foi produzido a partir da obra de Darcy Ribeiro “O povo brasileiro”, dirigido por Isa Grinspum Ferraz está disponível no YouTube.

Darcy Ribeiro foi um antropólogo muito influente, além de ter sido político e ter recebido um assento na Academia Brasileira de Letras, se envolveu em projetos educacionais, como ter ajudado a criar a Universidade de Brasília, e ter se dedicado à causas indígenas.

Selecionamos o capítulo 4 “Encontros e Desencontros” que trata justamente da mistura das três matrizes que mais influenciaram a identidade brasileira.

Recomendamos que veja também todos os outros capítulos!

 

Fontes: IBGE, Brasil 500 Anos, Retrato molecular do Brasil, Preconceito: Mito da democracia racial só fez mal ao negro no Brasil

FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. J. Olympio, 1933.

 

Por Gustavo Faggiani, Jéssica Abrahão, Patrícia Graciano, Rhuan Pereira e Vinícius Rico.